Sem medo de grama no cabelo, brasileiras do rúgbi miram Rio 2016

O esporte, que vai voltar a fazer parte dos Jogos Olímpicos, tem atraído mais jogadoras do sexo feminino. Conheça mais a prática.

iG São Paulo , Natália Eiras |

André Giorgi
Aline, Thais e Amanda tem vida de garota comum fora do campo, mas dentro dele não fogem da briga

Quando se pensa em rúgbi, quase sempre vêm à cabeça brutamontes desdentados, com camisas listradas, amontoados em uma roda todos sujos de terra. A seleção brasileira feminina mostra, no entanto, que existe sim espaço para a mulherada no campo e que, apesar de ser um esporte de contato, o jogo tem também bastante respeito.

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Aline (a terceira, em pé) e o time que ajudou a criar em sua faculdade, o Iguanas Paulista

“Rúgbi não é futebol americano”, deixa claro Thais Ribeiro, de 21 anos, que se divide entre a faculdade de Educação Física e os treinos do Rio Branco, time paulistano de rúgbi. “A modalidade dos EUA é muito mais violenta”, esclarece.

No próximo dia 21 de outubro, acontece a final do Campeonato Rugby Super Sevens Feminino. Mas, no ranking sul-americano, já sabemos quais são as cores da vitória: verde e amarelo -- o Campeonato Sul-Americano acontece desde 2004 e o Brasil foi o campeão de todas as edições. No ranking mundial, o país ocupa neste ano a 33ª posição, uma acima em relação a 2011.

O sucesso da seleção, somado ao fato de que o rúgbi voltará a fazer parte dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio, fez com que o esporte recebesse mais atenção no país.

Apesar da aparência violenta, o rúgbi é um esporte originalmente da alta-sociedade. A modalidade foi criada na cidade de Rugby, na Inglaterra, quando, em uma escola de lordes, dois times estavam jogando futebol, quando um dos jogadores resolveu levar as bolas nas mãos, em vez dos pés. De uma travessura, nasceu a modalidade.

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O Rio Branco tem, atualmente, 12 meninas jogando rúgbi. No próximo dia 21, participa da última etapa do Super Sevens. Foto: André GiorgiAline, Thais e Amanda são exemplos de meninas que jogam rúgbi e, fora do campo, são garotas normais. Foto: André GiorgiJogadora de centro, Aline Raissa Selvini joga rugbi desde agosto do ano passado. Foto: André GiorgiAmanda Ricciuti é formada em gastronomia, cursa nutrição, mas é apaixonada mesmo pelo rúgbi. . Foto: André GiorgiThais Ribeiro, de 21 anos, joga há apenas nove meses, mas já é uma das praticantes mais entusiasmadas. Foto: André Giorgi"No rúgbi, você descobre as suas deficiências e as adapta para melhorar o seu jogo", diz Amanda. Foto: André Giorgi"Tem amigos meus que me perguntam se o rúgbi não é um jogo muito brutal para uma garota como eu", comenta Thais. Foto: André GiorgiSegundo Aline, quando os meninos descobrem que ela joga rúgbi, comentam brincando: "Nossa, que medo". Foto: André GiorgiAs meninas contam que, no começo, é normal ter problemas com condicionamento físico. "Eu não tinha tanta velocidade", conta Aline.. Foto: André GiorgiJá para Amanda, o principal obstáculo é, às vezes, o medo de se machucar. "As novatas hesitam em fazer contato com outras jogadoras". Foto: André GiorgiComo sempre jogou futebol, Thais estranhou as regras. "Eu cismava em avançar no campo, sendo que eu tinha que ficar recuada". Foto: André GiorgiOs times femininos costumam treinar pelo menos duas vezes por semana, durante duas horas. Foto: André GiorgiO terceiro tempo é o momento de confraternização entre os times. "A equipe anfitriã oferece um churrasco para o adversário", diz Amanda.. Foto: André Giorgi

Há várias formas de jogar. No Brasil, o time masculino costuma jogar o Union, com 15 jogadores em campo e que tem muito mais impacto. As mulheres se destacam no Seven, em que são apenas sete pessoas em campo e a troca de passes e os pontos acontecem muito rapidamente, quase não havendo trombadas.

Salto alto fora de campo

Aos 21 anos, Aline Raissa Selvini parece uma garota comum: usa saltão na balada e é vaidosa mas, em dias de treino, não tem medo de sujar a camiseta e o cabelo na lama. A estudante joga rúgbi desde agosto de 2011, quando entrou em contato com o esporte porque queria praticar algo em sua faculdade, onde cursa Direito.

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Força total durante partida do Rio Branco

Antes de entrar de cabeça nos jogos universitários, Aline decidiu conhecer melhor a prática no Rio Branco. “Comecei a jogar e me apaixonei. Tanto que criamos o nosso próprio time na universidade, o Iguanas Paulista”. Por participar de duas equipes, atualmente ela treina até três vezes por semana.

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Assim como a maioria das novatas, Aline teve dificuldade na hora de ganhar condicionamento físico. “Eu não tinha muita velocidade e, como o Seven é um modalidade em que tudo acontece bastante rápido, eu ficava para trás”, explica a estudante.

Outro obstáculo foram as regras, que não tem nada a ver com as de outros esportes praticados no país: “É difícil entender que não pode passar a bola para frente, por exemplo, então na hora do jogo você fica meio confusa”.

Amanda Ricciuti, de 20 anos, aponta que o maior obstáculo feminino é perder o medo de se machucar. “Quando você entra em um jogo pela primeira vez, tem medo de cair, de fazer o contato com as outras jogadoras”, comenta a paulista, que é formada em gastronomia e atualmente cursa nutrição. “Mas logo você acha que raspar o joelho e torcer o tornozelo são coisas corriqueiras.”

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Tanto para os homens como para mulheres, não é obrigatório o uso de proteção, a não ser o bucal. No caso das meninas, no entanto, é preciso tomar cuidado com as unhas compridas. “E o juiz também olha se elas longas demais, porque podem machucar as outras jogadoras”, diz Amanda. “Tem garota que deixa de jogar porque foi na manicure no dia anterior e pode estragar”, brinca.

Para evitar lesões mais intensas, existe, ainda, uma técnica para cair depois do “tackle”, técnica em que você derruba uma jogadora adversária.

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"Regras do rúgbi prezam o respeito e a integridade das jogadoras", diz Thais

“As regras do rúgbi pregam, principalmente, o respeito e a integridade física das praticantes”, conta Thais. “Por isso é muito difícil a gente jogar sujo ou fazer entradas ‘na maldade’, porque seremos, com certeza, punidas”.

No entanto, por ser um jogo que lida principalmente com o contato, é muito fácil as meninas ficarem nervosas. “Aí é hora de você respirar fundo e pensar que, ao mesmo tempo em que estou derrubando uma jogadora adversária, o outro time vai derrubar alguma companheira minha”, comenta Aline. “É preciso ter a cabeça fria, focada”.

Discriminação

Sobre a reação dos meninos, Aline diz que nunca sofreu preconceito. “Eles só falam algo tipo: ‘Nossa, que medo’, mas estão brincando”. Thais, por sua vez, conta que às vezes ouve de amigos que “rúgbi é jogo de menino”. “Eles ficam me perguntando se não é muito bruto para uma menina como eu”, comenta. Amanda ouvia o mesmo tipo de coisa, mas da mãe. “Ela vivia me falando que era um esporte masculino, mas, hoje em dia, vai nos jogos e torce por mim”.

Thais ainda aponta que, apesar de ser muito mais brando, ainda existe uma certa discriminação das mulheres jogadoras de rúgbi. “Não há valorização dos times femininos e os nossos campeonatos se tornam uma bagunça”, comenta a garota. “O Super Sevens era para ter oito etapas, mas acabou tendo apenas três, por exemplo, por causa da desorganização. Ninguém presta muita atenção em nosso trabalho”.

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Foto de amistoso do Rio Branco com o time da faculdade Cásper Líbero

Este tipo de tratamento afeta, de acordo com Thais, até mesmo o modo de jogar das meninas. “As garotas são mais lentas em campo, em relação aos homens. Isto é um reflexo tanto da capacidade física das jogadoras como a falta de incentivo que elas recebem por parte de organizadores”.

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Todo mundo pode jogar

Em um time de rúgbi, há lugar tanto para as meninas menores e leves, que atuam normalmente como ponta, como para aquelas que são mais altas e pesadas, que assumem o papel de pilares e ficam à frente da equipe.

Amanda, que emagreceu 45 quilos desde que começou a fazer rúgbi, comenta que o esporte é bastante democrático. “O legal de jogar rúgbi é que você entende as suas deficiências e pode adaptá-las ou superá-las para melhorar o seu jogo”.

Como é uma prática ainda amadora no Brasil, não há seletivas para entrar nos principais clubes de rúgbi. No Rio Branco, que tem 12 jogadoras atualmente, por exemplo, as meninas apenas pagam uma mensalidade que é destinada para o transporte do time e para os uniformes.

Mesmo com todas as dificuldades, Thais vê que há muitas meninas interessadas no esporte. “A gente vê novos times e muito mais informação na mídia”, comenta. “O que eu acho ótimo, porque quanto mais garotas jogando rúgbi, melhor.”

Terceiro tempo

Os jogos de rúgbi são feitos por dois tempos de sete minutos. Mas, extra-oficialmente, existe o terceiro tempo. “Depois do jogo, o time anfitrião promove um churrasco para a equipe que veio jogar contra ele”, explica Aline.

É neste momento que eles mostram que a brutalidade fica em campo e que, fora dele, todo mundo é amigo. “É uma confraternização que representa bem as regras do rúgbi”, conta Amanda.

Além do terceiro tempo, as equipes mostram que existe uma rivalidade saudável até mesmo em campeonatos. Como os jogos são bastante rápidos, as rodadas de uma competição podem acontecer todas em um ou dois dias. “Aí, como vamos ficar várias horas esperando jogos, a gente leva barraca, comida e toalhas para passar o tempo”, conta Amanda. “Os campeonatos são uma grande festa para todas as equipes.”

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