De luvas cor de rosa, meninas mostram no ringue que luta é coisa de mulher

Por iG São Paulo , Natália Eiras | - Atualizada às

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Em fevereiro, o UFC, maior torneio de MMA do mundo, realizou sua primeira luta entre mulheres. Nos ringues de todo o Brasil, o mundo da pancadaria também é território feminino

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Ronda Rousey e Liz Carmouche protagonizaram a primeira luta feminina do UFC

Garotas são frágeis e estão sempre preocupadas em não quebrar as unhas? Nem sempre. Há meninas que, em vez de anéis e pulseiras, preferem usar nas mãos um acessório mais inusitado: luvas de boxe. Quem o digam Ronda Rousey e Liz Carmouche, integrantes do primeiro embate feminino do UFC, o mais popular torneio de artes marciais do mundo, que aconteceu no fim de fevereiro na Califórnia. E o melhor: as americanas mostraram que ser feminina não impede ninguém de ser boa nos ringues.

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Arquivo pessoal
Melise Rodrigues usa luvas rosa, mas, no treino, fica com cara fechada

Aqui no Brasil, lutar também é o esporte de escolha de várias garotas que, sem perder a feminilidade, apostam no corpo a corpo para definir os músculos. De cara lavada e com muita garra, mas sem perder a ternura jamais, as meninas enfrentam as piadas, os golpes e o preconceito dos meninos.

Melise Rodrigues de Sousa, 23, pode não usar maquiagem durante os treinos de boxe, mas as luvas pink entregam o seu lado “mulherzinha”. “Eu sempre uso uma gracinha no cabelo”, conta a estudante de educação física. “Mas não pode ser nada muito elaborado, senão distrai”.

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Outra adepta dos equipamentos cor de rosa é Verônica Chagas, 21, que pratica muay thai há quase um ano. A cor é a única vaidade que ela leva para o tatame. “Sou muito feminina”, diz a publicitária. “Mas não acho que preciso me maquiar para lutar”.

Para a estudante de direito Larissa dos Santos Vaz, 24, ir maquiada ao treino de jiu-jitsu, que pratica há três anos, está fora de cogitação, já que o hábito poderia aborrecer os seus companheiros. "Posso sujar o kimono do meu colega e isso não é legal”, explica a jovem.

Fora do tatame/ringue, essas praticantes são meninas normais, que não deixam de tomar os cuidados necessários com a beleza e a pele, gostam de sair com os amigos, fazem biquinho na frente do espelho e até chamam as colegas de treino para tirar foto. Só que, no momento em que os rounds começam a rolar, o assunto fica sério. 

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“Eu fecho a cara mesmo”, diz Verônica Chagas,que no dia-a-dia é bastante risonha. “Tento me desligar do mundo para me focar no treino”, fala.

Para Larissa, a concentração é uma forma também de os companheiros de exercício a respeitarem como lutadora. “Os caras acham que estamos treinando só para emagrecer”, explica a jovem. “Então no começo é difícil o pessoal te levar a sério.”

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A brasileira Cris Cyborg, que chegou a integrar o UFC, é um dos exemplos que as garotas seguem

“Luta não combina com você”

As garotas que praticam alguma arte marcial já ouviram, em algum momento, que “luta é coisa de menino”. Baixa e magra, Melise é sempre alvo deste tipo de comentário. “Como sou instrutora de academia, eu lido com gente de tudo que é idade. Quando um aluno meu idoso fica sabendo que faço boxe, ele já diz: ‘Você fazendo uma coisa dessas?’”, conta a garota.

Larissa diz que o seu 1,80m de altura ajuda a evitar frases como essas. “O meu fator intimidação funciona bastante”, brinca a jovem. “Ainda assim rola o típico: ‘Nossa, não vou mexer com você, então’”.

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“Ninguém nunca encara o fato de eu praticar muay thai como algo normal”, conta Verônica. “De duas uma: ou a pessoa não acredita e me zoa ou se assusta comigo." Segundo ela, os comentários cessam no momento em que ela explica porque gosta de lutar. “Quem ouve meus argumentos fica até admirado e com vontade de praticar também”.

Arquivo pessoal
"Tem cara que bate nas meninas com maldade", diz Verônica Chagas

MENINO VERSUS MENINA

Se for a um treino de arte marcial, não espere encontrar uma sala apenas com garotas. Meninos e meninas podem ser fisicamente diferentes, mas todos praticam juntos. “Se está ali é para fazer igual”, explica Melise. “Eu, por exemplo, nunca treinei com outra mulher”.

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As meninas contam que, por mais que todos sejam tratados em pé de igualdade pelo mestre, alguns alunos costumam ter preconceito com a presença das garotas. “Eles não querem dizer na rua que apanham de mulher”, explica Melise. E eles não deixam barato: fazem brincadeiras sem graça e chegam a atingir as meninas com golpes maldosos.

“Tinha um cara numa escola em que eu fazia thai que batia nas meninas na maldade, por orgulho”, conta Verônica. “Mas ele era muito menos ágil e as garotas acertavam ele mesmo assim”, ri.

Melise já foi alvo de comentários preconceituosos. “Os caras ficavam falando: ‘Moça, o balé é ali do lado. Aqui você vai se machucar’”, conta a estudante. “Mas eles começaram a me respeitar quando viram que eu estava ali para socar”.

Por conta desse ambiente meio hostil, as garotas precisam também se impor dentro do treino. “Eu não deixo os meninos pensarem que sou diferente deles”, explica Larissa. “Tenho uma relação de amizade com eles fora do treino, mas não permito que eles me tratem com cavalheirismo, por exemplo, porque senão eles vão levar isso para o tatame”.

Ainda assim, o número de garotos que respeitam e admiram as meninas lutadoras é muito maior do que os que têm preconceito. De acordo com Verônica, a luta é o fator que une os dois gêneros dentro do tatame/ringue. “A paixão, a dedicação, são a mesma. E quando a gente se respeita é que a gente melhora”, diz.

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