Abuso sexual: como se defender?
Por Lia Nasser (contato@igirl.com.br)
Parece uma tarefa bem difícil distinguir o que pode ser considerado abuso sexual, do que é apenas carinho, atenção ou cuidado. Isso talvez aconteça devido ao perfil de quem costuma cometer esses atos: 80% dos abusadores fazem parte da família. Os outros 20% são conhecidos de quem sofre o abuso, geralmente pessoas de confiança que freqüentam a sua casa.
Segundo Andréa Machado - psicóloga no PAVAS (Programa de Atenção à Violência Sexual), que faz parte do Centro de saúde Geraldo de Paula Souza, da Faculdade de Saúde da USP - não existem pesquisas sobre o assunto no Brasil, porém, tais números são baseados em estatísticas norte-americanas e em experiência/conhecimento de campo. Apesar de termos a impressão que o abuso sexual acontece mais com meninas, metade das pessoas que procuram ajuda no PAVAS são meninos.
O nome abuso sexual se refere à seguinte situação: alguém, no mínimo, 5 anos mais velho, se aproxima com a intenção de se aproveitar sexualmente de outra pessoa. Quem é essa outra pessoa? Teoricamente, pode ser qualquer criança ou adolescente. E como os casos são mais freqüentes do que podemos imaginar, é importante ficar atento e não ter vergonha de pensar e falar sobre o assunto. Um desses inúmeros casos de abuso aconteceu com Helena, 25 anos, quando ela tinha aproximadamente 16 anos: “notei que o pai da minha melhor amiga me olhava de um jeito estranho, mas não comentei com ninguém para não causar uma situação desconfortável na família dela, com a mãe dela”, conta Helena. “Certo dia em que estava com minha amiga em sua casa de praia assistindo TV, senti que o pai dela me acariciava por debaixo do cobertor. Fiquei muito assustada. Demorou para eu tomar consciência de que estava sendo abusada sexualmente, mas com o tempo deixei de ir na casa da minha amiga, de onde, antes, não saía. A mãe e a irmã dela me perguntavam por que eu não ia mais lá e eu não tinha coragem de dizer” termina ela.
Justamente pela pessoa que abusa sexualmente ser mais madura, é que surge a dúvida: realmente foi um caso de abuso sexual? E se, por acaso, a pessoa só tentou se aproveitar sexualmente? A psicóloga responde: “só o fato de tentar, já pode ser considerado um abuso sexual. Um toque, uma carícia ou mesmo palavras e propostas verbais podem ser consideradas um abuso”.
Por isso, se você já se sentiu incômoda ou constrangida com alguma atitude de alguém mais velho, a psicóloga Andréa M. aconselha: “tente impedir a ação e mostrar que ela não te interessa. Se não tiver certeza de que a ação merece uma represália, é importante observar, ficar atenta em relação à maneira que a pessoa se aproxima, que intenções ela tem. Se as tentativas de aproximação, o toque, propostas para ficarem sozinhos; se repetirem, já se configura o abuso sexual”. Falar sobre este assunto é muito difícil. No entanto, meninas, a conversa é a única maneira de resolver o problema e tentar compreender o que aconteceu e o que acontece com tantos meninos e meninas pelo mundo.
Conclusão: caso tenha vivido algo assim, se deixar a vergonha ou o medo impedirem que o assunto seja falado, a dúvida sempre continua, assim como o problema. Por isso, explica Andréa: “quando se sentirem incomodadas ou constrangidas sexualmente, é muito importante procurar alguém de confiança, uma professora, vizinha, alguém mais velho e experiente para conversar. É muito difícil conseguir lidar com situações como essas, principalmente sozinha”.
Para a psicóloga, muitos adolescentes guardam para si situações como estas, constrangedoras, por medo ou culpa. O medo é comum em casos em que, quem abusa, ameaça a vítima dizendo que ela destruirá a família caso conte para alguém, ou mesmo fazendo ameaças físicas. O caso de culpa, diz a psicóloga, “acontece quando o adolescente se fecha por achar que contribuiu de alguma forma para que acontecesse o abuso, o que geralmente não é verdade”.
Afinal, a não ser que tenha tido realmente a intenção de seduzir, seria impossível uma pessoa ser culpada por ser molestada ou invadida na sua intimidade, não é mesmo?
O panorama de conseqüências para quem sofre abuso sexual é muito grande. Dificuldade nas relações sexuais futuras, insônia, pesadelos recorrentes, problemas de alimentação como bulimia e anorexia, excessiva timidez, mudança brusca de temperamento, agressividade exaltada são algumas possibilidades. Esses sintomas são mais graves à medida que o problema se prolonga ou ainda, quando não é exteriorizado. Por isso, o mais importante para resolver e colaborar para que isso não mais aconteça com outras pessoas, é procurar ajuda.
Além de procurar alguém de confiança para conversar, existe a possibilidade de procurar auxílio especializado. Esses serviços, como o PAVAS, ajudam a vítima a superar os traumas de um abuso sexual. Esses atendimentos cuidam da saúde física e mental de quem os procura.
Por ser crime, existe ainda a possibilidade de procurar ajuda na delegacia da mulher mais próxima, aonde serão tomadas as providências de investigação. Essa alternativa é aconselhada nos casos recorrentes de abuso e nos que envolvem a violência. O mais o importante mesmo é não ficar calada!
Onde procurar ajuda especializada:
PAVAS – Programa de atenção a violência sexual. Centro de Saúde Geraldo de Paula Souza, da Faculdade de Saúde da USP. Atende crianças e adolescentes e dá auxílio físico e psicológico. Telefone para agendar atendimentos: (11) 3066-7726. Dúvidas podem ser tiradas pelo e-mail pavas@usp.br
Unifesp – Universidade Federal de São Paulo. Escola Paulista de Medicina. Casa Professor Domingos de Lácio, mais conhecido como Casa da Mulher. Fornece atendimento psicológico se segunda à sexta-feira das 7h00 às 16h00. Rua Borges lagoa, 418. Telefone: 5576-4477
Instituto Sedes Sapientiae. O instituto conta com um centro de atendimento que desenvolve diversos serviços relacionados. Endereço: Rua Ministro Godói, 1484. Perdizes. Telefone (11) 3866-2730. Site: www.sedes.org.br Funciona de segunda à sexta-feira das 8h às 21h.
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