Meninos que amam demais
Por Mariana De Lucca (contato@igirl.com.br)
Você está namorando, gosta bastante do rapaz e até se sente valorizada quando ele se mostra com um certo “ciuminho”. Mas depois de um tempo, o garoto já começa a exagerar na dose e quer tomar conta da sua vida. Interfere em suas decisões pessoais, controla suas amizades, a proíbe de usar certas roupas e fica vigiando cada passo que você dá. Ele diz que te ama e quer cuidar do “patrimônio”, mas o que fazer quando as coisas começam a passar dos limites?
A psicóloga Egle Filiace explica que o ciúme doentio começa quando as pessoas se apegam ao companheiro como se ele fosse uma propriedade. “As pessoas confundem amor com posse e ficam paranóicas, com medo de serem traídas. Qualquer ato de afeto que não tem nenhum significado pode ser fantasiado pelo ciumento como uma traição. A pessoa se desequilibra e o ciúme chega a ficar insuportável”. O ciumento doentio não suporta ser rejeitado nem imaginar a pessoa amada tendo outro relacionamento e passa a ser escravo desse sentimento. “Quando o ciúme vira motivo de brigas e desarmonia na relação, é hora de ficar alerta”, afirma Egle.
A paulistana M.M., 19 anos, suportou o ciúme do namorado durante um ano e meio. O garoto tinha ciúmes dos amigos, não a deixava pegar carona com certas pessoas e reclamava quando a ela se maquiava para sair. No começo do namoro, M.M. tolerava o ciúme por achar normal, mas, depois de algum tempo, ela começou a se irritar com tantas restrições. “Se eu ia ao shopping sozinha, ele ligava pra minha mãe pra tirar satisfações. Se alguém olhava pra mim na rua, ele começava a dar escândalo. Até quando eu tinha que trabalhar no final de semana ele não me deixava ir e ficava ligando de dez em dez minutos, até de madrugada, um grude”. Cansada de tanto ciúme, M.M. quis terminar, mas não imaginou que ia ser tão difícil. “Toda vez que eu tentava conversar com ele, ele chorava, não deixava terminar, dizia que não podia viver sem mim e fazia mil ameaças. Tive que acabar tudo por telefone. Aí ele me xingou muito”.
Já a personal trainner Cristina Aguiar, de 24 anos, hoje encara as confusões do ex-namorado ciumento com bom humor, mas lembra que na época não foi nada fácil enfrentar a situação “Ele tinha muito ciúme dos rapazes que treinavam ginástica comigo e fazia questão de assistir a todos os treinos. Tinha ciúmes da minha família, de crianças, de cães, de qualquer coisa que chegasse perto e eu desse atenção. Namoramos por quatro anos e meus amigos não o suportavam”. As atitudes do ex-namorado fizeram Cristina terminar tudo com o garoto e pensar se vale a pena encarar um novo namoro. “Agora não caio mais nessa de ‘só pode o que eu quiser’”.
A estudante de geografia E.S., 22 anos, sofria com o ciúme do namorado desde o início do relacionamento, mas quando resolveu pôr fim ao namoro de dois anos, seu inferno começou. “Ele me proibia de falar com determinadas pessoas, de ir a alguns lugares e queria decidir a minha vida. Achava que quando a gente gosta de alguém tem que cuidar da pessoa e, na cabeça dele, era assim que se cuidava de alguém. Resolvi terminar porque eu já não tinha identidade”. Depois de três meses sozinha, E.S. ficou com outro menino e o ex descobriu. “No dia em que ficou sabendo que eu havia ficado com outro cara, ele surtou. Foi até a minha casa e me agrediu fisicamente. Depois disso, vieram inúmeras ameaças a mim, às pessoas próximas e ao menino com quem eu havia ficado. Ele começou a me perseguir. Até hoje ele descobre as senhas e vasculha os meus e-mails, inventa mentiras a meu respeito. Na época, ele ameaçou me matar e a se matar também. Quanto às agressões, E.S. não teve coragem de fazer nenhuma denúncia.“Quando uma coisa dessas acontece, a sensação é muito estranha. Não importa o grau de instrução da pessoa, o primeiro sentimento que vem à tona é vergonha, muita vergonha”.
De todas as ameaças do ex-namorado, a que E.S. mais temia era a de suicídio. “Ele dizia que ia se matar, me matar e matar todos os meus amigos que me defendiam. Era um pinel.” Uma ameaça como esta se concretizou no caso de uma amiga de E.S., Camila Palini Duarte. A garota foi morta aos 22 anos pelo ex-namorado Higor Catirsi enquanto trabalhava numa loja de departamento em São Paulo no começo de setembro. Camila estava com um novo namorado e o ex não agüentou. O caso foi notícia em jornais de todo o país. “Ela passou pelas mesmas coisas que eu, mas, infelizmente, a história dela teve outro fim”, lamenta E.S.
Em Brasília, o ciúme doentio gerou outro assassinato no mês passado. Fabiana Oliveira dos Santos, 21 anos, foi morta pelo namorado, Rafhael Leme da Costa, 21, que confessou o crime e está preso. Segundo a prima de Fabiana, Alessandra Da Silva, 28, Rafhael sempre foi um namorado muito ciumento. “Todos os dias ele ficava esperando a Fabiana na porta da loja onde ela trabalhava. Tinha ciúme do primo, não a deixava conversar nem com o próprio pai. O ciúme doentio o levou a fazer o que fez”. Os dois estavam namorando há seis meses e Fabiana já não suportava mais ser tão sufocada. “Antes do crime, ela passou na minha casa e disse que iria terminar tudo, que não agüentava mais tanto ciúme e que não queria ficar com ele naquela noite. Ele não quis perder a Fabiana e acabou cometendo essa loucura”.
O crime passional é um caso extremo, mas, quando o ciúme é exagerado, ele incomoda e acaba com qualquer relacionamento. Se o amor passa dos limites, e a pessoa passa a se sentir dona de seu companheiro, é sinal que o namoro merece uma atenção especial. Egle explica que ao primeiro sinal de ciúme exagerado, a garota deve se manter firme na posição dela e não se submeter ao ciúme. “É importante podar os atos no começo, batalhar pelo espaço na relação. Já o ciumento deve procurar um tratamento para que esse desequilíbrio não se torne ainda pior”, conclui.
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E.S. sofreu inúmeras ameaças do ex. A amiga, que também era vítima de pressão, acabou assassinada.

Cristina Aguiar sofria com o namorado até na hora de trabalhar
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