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Para não se viver em função de um namorado

Aos 14 anos de idade, a estudante Marina Leite tinha um cotidiano agitado. Treinava ginástica olímpica; fazia inglês; participava de um grupo de teatro da escola. Entre uma atividade e outra, encontrava tempo para sair com as amigas e fazer programas com a família. Cinco anos depois, Marina está tão diferente que chega a duvidar que já teve aquela vida “ativa e saudável”. “Me sinto falando sobre outra pessoa, não sobre mim. Não me reconheço mais”, desabafa a estudante.

A crise de identidade precoce da estudante tem motivo: um longo e perturbado namoro. “Foram cinco anos de paixão que me transformaram numa neurótica em agradar o namorado”, revela. “Larguei minhas amigas, perdi o interesse pelas coisas que gostava, tudo para me dedicar ao Rogério”, conta. Há um mês, eles acabaram o relacionamento e Marina se diz “em estado de choque, num vazio profundo”.

O caso de Marina é dos mais dramáticos – foram cinco anos de entrega total ao namorado - mas quem nunca vivenciou ou viu uma amiga passar por uma história parecida?

A alegoria de Eros e Psiquê, respectivamente os representantes do “Amor” e da “Alma” na Mitologia Grega , é a referência da psicóloga Joyce Mello para explicar o que acontece quando a gente vive um grande e intenso amor. “Depois de se casarem, Eros e Psiquê mudaram-se para um castelo onde só viviam os dois. Aquele ambiente isolado era encantador para Psiquê. "Qual recém-apaixonado que não sonha em fazer as malas e viver no castelo da fantasia aonde só existem ele e o outro?”, conta.

Porém um dia, Eros se foi levando o castelo. Uma vida real os chamava, já bastava dessa fantasia. “No lugar do castelo, ficou um deserto, um vazio”, diz a psicóloga. Qualquer semelhança com a história de Marina não é mera coincidência: quando sua vida é em função de uma coisa que se acaba, ela vai embora junto.

Fabiana Pascios, 28, foi uma que viveu um namoro desses, e não gostou. “A mulher tem essa índole de cuidar dos homens, de atender a qualquer chamado deles. Isso é uma besteira, quando você percebe, já se afastou de tudo e de todos”, diz. “Cheguei a apresentar uma amiga minha a outra amiga, para que elas se tornassem amigas também e não sentissem tanto a minha falta”, lembra Fabiana. Tudo isso aconteceu no primeiro namoro da vida da Fabi, quando ela tinha 17 anos. Hoje, Fabi percebe que “faltou experiência” para administrar o relacionamento. “Não é a paixão que faz você se anular ao lado do cara. Paixão, eu sinto até hoje, mas não caio mais nessa”.

Para a psicóloga, tanto a entrega total no início do namoro, quanto a experiência de cair no deserto de Psique, têm suas funções. “Faz parte do namoro viver um tempo no castelo. É assim que você descobre as afinidades e cria uma atmosfera de intimidade com seu namorado”, diz. Esses momentos de fantasia, porém, quando se prolongam, podem provocar um fim igual ao da Marina: um coração quebrado e uma vida vazia.

O que a Marina deve fazer agora é rever sua postura com o ex-namorado. “Aprender com essa experiência e não repetir os mesmos erros é condição básica para a menina se transforma em mulher, romper a fantasia do príncipe encantado e estar preparada para a vida adulta”, acredita a psicóloga. E foi isso que a Fabiana fez. Hoje ela faz questão que seu namorado seja amigo de suas amigas. “São elas que vão estar ao meu lado para o resto da vida”.

Além disso, para Fabi, as amigas são o seu contato com o mundo “lá de fora”. “Os casai se fecham tanto na idéia de que um completa o outro que acabam perdendo as amizades, mas não é assim, o mundo existe e sempre estará aí”, aconselha. Ela diz mais: “seu namorado não é a pessoa certa para determinadas conversas. Tem coisa que é só para se falar com as amigas. Ignorar isso é perder tempo com conversas desnecessárias”.

Assim como Eros, que exigia de Psiquê total atenção, há muitos meninos que fazem questão de ser o centro da vida de suas namoradas. Saber administrar esse desejo é tarefa árdua, mas que não deve ser ignorada. Construir um relacionamento saudável, em que cada um tenha sua vida e suas intimidades, é fundamental para um futuro bacana. O esforço vale a pena.



Fabiana (esquerda) ao lado da amiga Dani:
Fabiana (esquerda) ao lado da amiga Dani: "faço questão que meu namorado seja amigo de minhas amigas"

O livro
O livro "She - a chave do entendimento da psicologia feminina" fala sobre o mito de Eros e Psiquê









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