Se você tem um amigo viciado em qualquer droga, deve saber como é difícil convencê-lo de que precisa de ajuda. Isso porque, geralmente, uma pessoa viciada não consegue enxergar a gravidade de sua situação.
Contudo, quem vê de fora percebe claramente que a vida da pessoa mudou, piorou, e que ela não é mais a mesma. Mas, na maioria das vezes, o dependente não consegue enxergar isso e continua querendo mais e mais, até que um dia...
ouve sua própria fala, numa conversa gravada e se assusta!
Isso mesmo! Um grande estranhamento nos pacientes com relação à própria fala. Foi o que detectou uma pesquisa com usuários de drogas, realizada pelo Ambulatório de Adolescentes e Drogas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP.
A pesquisa, sob coordenação do fonoaudiólogo Christian de Oliveira e orientada pelas Dras Sandra Scivoletto e Claudia Scheuer, verificou que os adolescentes, mesmo sem estarem sob efeito de drogas naquele momento, tinham dificuldades para organizar o pensamento, refletindo em uma comunicação não efetiva, ou seja, meio complicada. Daí o susto!
Segundo Christian, entre os usuários de maconha, o estranhamento ocorreu com relação à demora em conectar as suas próprias idéias. “Affe... viajei néh tio?!”, comentavam alguns deles.
Daí você pensa: “Ah, mas hoje em dia, todo mundo tem alguma dificuldade com a comunicação, principalmente os adolescentes”. Isso pode até ser verdade, sobretudo em virtude de questões sociais, educacionais, culturais ou mesmo em decorrência de algum problema na fala ou linguagem. Porém, segundo o fonoaudiólogo, o uso de drogas teria potencial para perturbar ainda mais a comunicação, uma vez que estas substâncias têm ação sobre o funcionamento do sistema nervoso central.
“É claro que a conversa faz algum sentido. O problema está na forma de ligar as idéias e expressar-se com eficácia. Muito tempo de comunicação é gasto para transmitir pouca informação”, explica o terapeuta.
Seus estudos comprovam que os pacientes que ouvem a própria comunicação (por meio de uma gravação em mini disc), tentam ficar mais tempo abstinentes, principalmente os usuários de maconha. Ao escutarem as gravações, eles têm uma prova incontestável de que a droga trouxe algum tipo de perda e, dessa forma, encaram o tratamento com mais seriedade.
Mas, apesar da fama de chapar geral, a maconha não é a única vilã. Segundo Christian, “todas as drogas podem prejudicar a comunicação, apesar de não serem todos os pacientes que apresentam este tipo de problema”, explica.
Com relação à cocaína, o “fungar” de nariz (devido à irritação da mucosa) parece incomodar os pacientes enquanto se ouvem, também foram observadas muitas pausas entre palavras, além de hesitações.
Foi durante os estudos de pós-graduação que o terapeuta descobriu na Fonoaudiologia uma nova maneira para motivar os jovens a reconhecerem parte dos prejuízos causados pelo uso de drogas e, dessa forma, partir para uma recuperação. Ainda bem que, a cada dia, novas ferramentas surgem na luta contra a dependência química!