É só chegar maio que os comerciais de mães fofinhas abarrotam o horário nobre da TV. E tem pra todos os gostos, filha dizendo que a mãe é tudo na vida, filho fazendo declaração de amor, grávida sorrindo para a barriga... entre outros. Até parece que a nossa relação com as mães é tão perfeita assim... faça-me rir! Mãe não é santa, também dá mancada e, às vezes, é bem pentelha...
Levei algum tempo pra entender tudo isso, e, mais ainda, pra perceber que minha mãe não era - nem tinha que ser - perfeita. A gente tem que aceitar as deficiências da mãe e parar de cobranças. Por que será que queremos que a nossa mãe seja a Virgem Maria? Gente, coitada... é um fardo muito grande!
É a dona Isabel - minha mãe - que saca quando os pensamentos mais remotos estão me zuando. É ela que - ainda hoje - leva chá de camomila na cama quando eu estou com cólica. É ela quem descola um empréstimo quando o bicho tá pegando no banco. Mas é ela também que faz o maior dramalhão com a menor bobagem, tenta boicotar minhas saídas em dias de chuva (siiim) e, pior, rasga e joga fora a minha bandeira do Nirvana - porque, segundo ela, não é bom ter foto de suicida no quarto!?
Ah... como é bom ter mãe! Melhor ainda se viessem com manual de uso! Bem, pra facilitar a sua vida, tracei três perfis de mães “difíceis”. Quem dá todas as dicas de como lidar com as feras é terapeuta familiar Elizabeth Polity, que colaborou gentilmente com essa coluna.
Mãe fim do mundo: a catastrófica Ela acha que você não pode ir pra balada com chuva porque a cidade vai ficar alagada. Ela broxa as melhores expectativas de uma noitada com a frase: “É perigoooso, nem vou dormir esperando você... tanto assalto por aí”. Muitas causas podem contribuir para esse tipo de atitude, uma delas é a dificuldade que a mãe pode ter de avaliar a realidade sem exageros, porque uma coisa é temporal, outra coisa é uma chuvinha. Nessa hora, vale recorrer para o bom senso do pai, tio, avó, ou qualquer pessoa que possa avaliar a real junto com vocês. Para se dar melhor com ela é preciso ser realmente responsável e mostrar que você consegue - consegue? - se safar das roubadas da vida. Claro que ela sempre fala as coisas para o seu bem e é super importante avaliar os conselhos dela com muito carinho, mas tente separar os seus medos dos medos da sua mãe.
Super Mãe: a megaprotetora Ela é mãe que faz. Faz até demais porque “faz pelo filho”. Coloca comida no prato do bebê - que já tem 18, não deixa ninguém dar bronca nele (só ela) e sooofre que nem louca com a menor dor de barriga dele. Essa mãe tem dificuldades em dar aquele “empurrão” básico na cria, do tipo: acorda, vai trabalhar vagabundo! Vai falar que não é bom ter uma mãe assim? Confessa vai... você goosta! O problema é que esse tipo de mãe atrapalha o desenvolvimento pessoal do filho, afinal, temos que tropeçar pra aprender a andar direito. Pense bem, para que exista uma mãe superprotetora é necessário que exista um filho “superprotegivel”. Quantas mães protegem demais um filho e não o outro? O que isso quer dizer? Que você pode ser muito responsável pelo comportamento dela. Vale olhar para os amigos e perceber o que as pessoas da sua idade andam fazendo (trabalho, responsabilidade, relacionamento amoroso). Tentar sair do colo da mamãe, por mais duro que seja, é necessário. Peça para que o pai - ou outros familiares - dê um toque na mãe, ela precisa perceber que não existe mais nenhum bebê, né?
Mãe cool: a moderninha Parece que ela tem uma invejinha da juventude da filha e quer ser a hiiiper melhor amiga dela. Também quer ser a mais magra da casa e ter o cabelo mais liso. Ama a filha demais, mas se comporta como uma irmã mais velha. Ela vai pra balada, fala todos os palavrões do mundo e, pior, aprendeu a dançar funk na semana passada. Este tipo de mãe "descolada" costuma deixar a filha com a sensação que não teve mãe! Ela inverte e subverte a hierarquia familiar. Nada de limites, regras e fronteiras. Legal né? Mas também: nada de respeito, segurança e colinho. Muitas filhas afirmam que acham muito bacana serem "amigas" de suas mães e, francamente, acho que como amigas até podem se dar muito bem. Daí eu pergunto: ok, são amigas, mas cadê a mãe? Cadê o adulto? Cadê o conforto? Afinal, ter amigas é importante, mas ter mãe é fundamental. Lidar com isso não é a tarefa mais fácil do mundo, mas vale a pena tentar. Comece preservando um pouco mais a sua intimidade, não tenha medo de pedir colo, peça a ajuda da mãe e, quando ele te contar coisas surreais, lembre a fofa de que a filha da família é você!
Bem, então é isso. Vamos parar com essa bobagem de que mãe é fada e encarar a mama de frente, com todas as qualidades e defeitos que ela tem direito de ter. Isso é amor. Sua mãe não foi feita exclusivamente pra você, já pensou nisso?
Conta aí !!! Como é a sua mãe! Vale deixar um recadinho carinhoso pra ela! Agradecimentos: Elizabeth Polity Psicopedagoga, Terapeuta Familiar, Doutora em Psicologia, Diretora do colégio Winnicott, Presidente da APTF, autora de diversos livros sobre Aprendizagem e Família pela Vetor Editora