“O seu problema é emocional”
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Há alguns anos era essa a frase que eu ouvia, decepcionada, dos médicos. Claro, eu não queria ter nenhum problema grave, mas era bom se eu tivesse algo... algo que pudesse ser curado. Explico. Eu sentia uma forte dor em todo abdômen, percorri muitos médicos, fiz exames e tal, mas tudo que eu conseguia era ouvir que o meu problema era emocional. “Emocional é seu diploma”, pensava eu, indignada - com todo respeito aos bons profissionais.

Enfim, num belo dia encontrei um belo médico, ele me ouviu atentamente e diagnosticou na hora: “você tem endometriose”.  Ele estava certo, os exames realmente não detectaram, mas eu tinha. Fiz o tratamento e em poucos meses toda a dor se foi, não era emocional.

Fico pensando quantas pessoas por aí têm problemas apontados de causa emocional, mas que realmente não o são. Ainda mais na adolescência, onde as emoções fervem.

O inverso também acontece, não adianta se entupir de remédios se o problema está na cabeça. Difícil é saber até onde vai o problema físico, e quando começa o emocional.

Para entender melhor essa história toda, troquei uma idéia com o psiquiatria Sergio G. Henriques Jr. Nesta entrevista, ele explica como as emoções agem em nosso organismo e se, afinal, o auto-sugestionamento realmente existe.

Como as emoções agem no corpo da gente, provocando uma dor, por exemplo?
Primeiramente é bom saber que a dor não pertence a qualquer doença, ela pode aparecer, inclusive, em indivíduos saudáveis. Acontece assim: receptores estão espalhados por todo o corpo, e quando ativados, levam sinais até o nosso cérebro. O cérebro interpreta esses sinais de acordo com nossas experiências, daí sentimos a dor.

Quando a dor tem duração longa, acima de 6 meses, a interpretação no cérebro pode ser modificada. Isso quer dizer que outros estímulos ou comportamentos podem desencadeá-la, ou ainda aumentá-la. Quer um exemplo? Eu tenho enxaqueca, mas se estiver depressivo, ela pode ser muito pior.

Quer dizer que um problema pode evoluir de leve para intenso, dependendo das interferências emocionais?
Uma dor pode ser amplificada - efeito fermento - por conta de um fator emocional ou comportamental, o que faz gerar no médico - na ausência de exames físicos confirmatórios – a impressão de que a causa é puramente emocional. Em alguns casos, por exemplo, a dor pode gerar ganhos secundários, como ganhar mais atenção... Por isso, é preciso um olhar cuidadoso por parte do profissional.

Podemos sugestionar o nosso corpo a desenvolver uma doença?
A principio não. Mas podemos nos sugestionar e ter sintomas de uma doença. Para esses casos, sugiro psicoterapia.

Os partidários da insegurança afirmam que nosso corpo desenvolve doenças por sugestão ou muito medo de tê-las. O que se sabe realmente? Que sob estresse, o nosso organismo perde capacidade de reação imunitaria, ou seja, fica mais frágil. 
O estresse, por exemplo, é um fator de risco para o desenvolvimento da depressão e quando deprimidos corremos maiores riscos.

Por outro lado, estamos expostos a doenças por todo o tempo, e não ter cuidado com o corpo, e agora estamos falando de comportamento, pode nos levar a adquirir doenças. Exemplos: ter relações sexuais sem preservativo é arriscado, fumar também, ou ainda, algumas pessoas comem muita gordura, mesmo sabendo que faz mal.

Daí eu pergunto, não seria uma auto-sugestão fazer coisas arriscadas mesmo sabendo que corremos riscos?


 Sergio G. Henriques Jr. é psiquiatra pelo instituto de psiquiatria do HC-FMUSP, mestre pela faculdade de medicina da USP e Membro do Grupo de Interconsulta do Ipq-HC-FMUSP.

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